Luz Vertical - a vertigem e a conciliação
26-Jan-2010

Imagem vazia padrãoTraz no olhar um azul insatisfeito, de uma procura intangível que entrelaça Luz e Escuridão, transpirando poesia em cada frame da vida que carrega. Na pele de quem tem o privilégio de a cruzar ficam escritos versos perdidos, frases que se aconchegam numa qualquer dor que não diz mas assume.

Nascida no Porto, Alexandra Malheiro é uma das grandes promessas no campo poético, integrando uma nova geração que pulsa, com garra, com desejo, com vontade de vingar a língua e a arte que dela emana. Conversar com Alexandra é sentir o tempo medíocre e querer mais dele. Talvez um tempo sem balizas, tão perene como a Poesia.

Depois de «Sombras de Noite», «Circulação Transversa» e «A Urgência das Palavras», é tempo agora de «Luz Vertical». Editado no passado mês de Dezembro, o quarto livro de Alexandra Malheiro, prefaciado por Pedro Abrunhosa, assume-se com uma quebra com o seu passado, explodindo numa nova estética, indubitavelmente mais madura.

“Alexandra Malheiro, Poeta inteira, ela própria vertical, infinita e remanescente, mostra-se finalmente como uma das mais surpreendentes novas vozes que se impõem no panorama da literatura nacional. Nada nela é concessão, arremesso ou veleidade.
Muito próxima da condição de música, a sua escrita também nunca toca o chão. É volátil e latente, dissonante e convergente, sensual e etérea. A justapor aos substantivos, tudo na sua escrita é som, melopeia e resolução".

Pedro Abrunhosa

 


PP - Após folhear o teu quarto livro, deparei-me com um elemento comum ao longo das páginas: o fogo. Utilizas substancialmente verbos como o acender, incendiar, entre outros. Em que contexto surge, neste livro, este elemento de forma tão vincada?

AM - O fogo é mesmo o elemento dominante do livro, sobretudo na primeira parte. Ainda pensei em atribuir-lhe outros títulos que não o que acabou por ser o escolhido e uma das hipóteses era precisamente Fuligem, por haver tanto fogo presente nestas páginas.

PP - E acabou por ser Luz…

AM - Sim, Luz Vertical, como uma Luz que vem de cima, uma luz recta, ou como diria o Eugénio, «a luz a prumo...». O fogo é um elemento de força, de luz e de calor ao mesmo tempo. Que aquece mas pode destruir, acabando por ter diversas ambivalências.

PP- Entre o fogo e a sua força, surge neste livro a sensação de que procuras, de que buscas algo que nunca chegas a alcançar. Como autora, subscreves esta análise, ou a tua  difere?

AM- Creio que, no fundo, todos procuramos e ambicionamos algo que nunca chegaremos a encontrar. A vida é uma busca constante por qualquer coisa que nunca atingimos na totalidade. Quando nos aproximamos do pleno queremos mais, queremos outra coisa qualquer…

PP- Depende, há escritas que se assumem mais realizadas... a dada altura dizes que "há muitas palavras por escrever". Essa busca, de certa forma, também se reflecte na procura do poema, da palavra certa...?

AM- Quando escrevo, procuro sempre encontrar o que falta, a palavra certa, a metáfora, a metonímia. É claro que nunca se encontra verdadeiramente. Quando escrevo gostaria, claro, de escrever aquilo que ainda não foi escrito, mas isso é impossível, a originalidade não existe, como não existe a frase perfeita, o poema perfeito, acho que vou procurando isso ao longo de todo o livro, como em tudo o que escrevo.

Imagem vazia padrãoPP-E o que te faz escrever?

AM- Acho que há duas coisas que me fazem escrever, duas coisas que se entrecruzam.
Tenho como estímulos todas as coisas que me comovem e palavras – ou frases – que me perseguem. Cruzam-se as coisas que me comovem com as palavras que me perseguem, ponho tudo isto ao meu serviço e surge o acto da escrita.

PP-E o que mais te comove?

AM- Posso dizer que me comovo com muita facilidade. Comovem-me as pessoas, talvez por serem muito “ricas”. Comovo-me com as suas dores, os desejos, os impulsos. Comovem-me muito os velhos, por exemplo, mais ainda do que as crianças…

PP- Este livro é dedicado, segundo as tuas palavras, a todos aqueles que iluminam a tua escuridão.  Consideras-te uma pessoa "escura?" Concordas com aquela ideia de que é da dor que nasce a arte?

AM- Tudo na vida é um jogo de opostos, é o Yin e Yang, o positivo e o negativo. Na dedicatória apeteceu-me fazer um pouco esse jogo de opostos, usando um jogo de linguagem, sem contudo sair da verdade. É a minha forma de agradecer aos meus Amigos, àqueles que são luz sobre os meus momentos de escuridão e são uma luz vertical, sem sombras, sem esquinas escuras - a luz que cai vertical onde mais precisamos.

Quanto ao facto se ser uma pessoa escura, creio que não, tenho escuridão e luz, o tal Yin e Yang. Não concordo que seja especificamente de dor que surge a arte. Talvez a dor, ou os momentos mais "escuros" nos tornem mais introspectivos, e talvez nessa altura tenhamos mais tempo para criar, enquanto que nos momentos de maior luz estejamos menos disponíveis para essa introspecção.
Penso que, provavelmente, também padeço um pouco desta alternância de disponibilidade para a escrita, mas creio que tenho muitos poemas escritos na Luz.

PP- Há, no término desta viagem que acontece ao longo do livro, uma conciliação, a qual fazes questão de distinguir…

AM-O livro está dividido em duas partes: vertigem e conciliação. A primeira parte é mais avassaladora, mais áspera, mais vertiginosa, daí o seu nome. Pretendi com ela estimular emoções mais intensas, como uma luz vertical que ilumina subitamente, rapidamente, tendo poemas mais curtos, mais directos. Penso que a primeira parte se lê num só trago, como uma vertigem.

PP- Já a segunda parte…

AM- …Tem outro cariz. Pretende ser um pouco a conciliação, a pacificação após a tormenta. Tem um conjunto de poemas em pares, uns mais curtos a que chamei “apontamentos” que são uma espécie de introdução, de alavanca, para outros, em geral mais longos, que sem saírem um pouco da ideia forte do fogo, do calor, da luz, dos sentimentos e sentidos intensos, são mais conciliadores. A minha ideia é dar um abanão ao leitor com a primeira parte e depois pacificá-lo com a segunda.

PP- Ao fim do quarto livro, já consegues identificar o teu leitor?

AM- Para ser sincera, não me preocupo muito com a identificação do leitor. Não o escolho, não escrevo para um público específico. Escrevo com as vísceras, fogo e sangue. Qualquer leitor é um bom leitor desde que se sinta tocado pelo que escrevo. A decisão de publicar, essa sim é fria e mais distanciada, e onde consigo depurar a escrita e escolher poemas, juntá-los em função de uma estética comum e é nessa altura que acho que vale a pena publicar, que vale a pena ser lido por um público qualquer, mas aí não faço questão de públicos. Gostava que a minha poesia (a que publico) fosse o mais lida possível, uma vez que depois de escrita e publicada é a única forma de continuar a crescer. Cada leitor é um novo autor porque reinterpreta tudo o que lê, faz a sua própria criação sobre a minha criação, como tal faz crescer os poemas que pareciam já estar terminados.

PP- Um poema termina-se?

AM- Termina. Não é um bom poema se não estiver terminado.

PP- Quando sentes que está terminado?


AM- Sei quando tenho um poema quando sinto que tenho uma frase (ou uma palavra) que o termina.
O fim tem de se perceber, tem de ser forte. Um poema ou vai em crescimento até atingir o seu auge no final, ou é um poema mais linear mas que termina quando, por assim dizer, já não há mais a acrescentar, já está tudo dito no poema.

PP- Falando um pouco do mundo literário, como é ser-se escritora, neste caso poetisa, em Portugal?

AM- Não sei muito bem assumir-me nesse papel. Entendo escritor(a )/poeta(isa) não como substantivos mas como adjectivos e, como tal, não tenho bem a certeza de ser qualquer um deles, caberá aos outros dizer isso. Entretanto como substantivo também tenho dificuldade em vestir esse fato, não sou profissional, não vivo disso e, infelizmente, creio que é muito difícil, senão impossível, viver-se da escrita, sobretudo de poesia que tem um público ainda mais mirrado.
É muito difícil a divulgação e a difusão das obras. Publica-se imensa coisa mas com pouco critério, usa-se o critério do lucro.

Há as editoras que publicam apenas os grandes nomes ou os nomes sonantes - são coisas diferentes - e há as editoras que publicam tudo o que lhes aparece desde que o autor assuma as custas da edição e a margem de lucro que estipularam. As primeiras são um mundo fechado e as segundas um comércio desinteressante. Acho que desta vez acertei, tenho um Editor e não um comerciante de livros e isso é muito reconfortante.

Mas depois há outra barreira que é a das livrarias, também  muito fechadas à volta do lucro e por isso muito viradas para os tais "nomes sonantes", o que fecha as portas a uma boa distribuição. Mas há honrosas excepções, há até livrarias que se dedicam só à poesia, como uma espécie de género maldito, mas suponho que vivem mal...

Portanto se fosse definir diria, provavelmente, em Portugal ser poeta é ser pobre (o que até dá assim um certo ar... poético e romanesco)

PP- E "quando apagas a luz, é ainda o mesmo tempo?"

AM-...O tempo nunca é bem o mesmo. O Palma diz "o tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção" e creio que o tempo não existe, de facto. É um conceito abstracto, mas considerando esse conceito ele avança sempre. No minuto em que respondo a esta pergunta já é passado quando ouves a resposta...
O tempo nunca é, de facto, o mesmo. Na "nossa invenção" de tempo pode ser sempre o mesmo, se acreditarmos que somos os mesmos...

 

Breves notas sobre a autora:

Alexandra Malheiro nasceu a 4 de Julho de 1972, na granítica cidade do Porto – a raiz de todos os poemas. É natural de Miragaia e Bonfinense de coração onde cresceu e reside até hoje.
É licenciada em Medicina pela Universidade do Porto e especialista em Medicina Interna.
Autora de “Sombras de Noite” (Elefante Editores -2004), “Circulação Transversa” (Corpos Editora - 2005), “A urgência das Palavras” (Edições Ecopy -2008) e “Luz Vertical” (Edita-Me – 2009) participou, também, nas antologias “Poesia SMS” (Elefante Editores - 2003) e "Os dias do Amor" (Ministério dos Livros Editores - 2009).
Colabora, de forma esporádica, com crónicas, em alguns jornais.
Página pessoal:
www.alexandramalheiro.no.sapo.pt